sábado, 21 de maio de 2011

É eu preciso dizer

Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem?



Ela não recusaria se tivesse pra dar, acreditem. Mas pedir pra ela um pouquinho de amor é como pedir as chaves pro motorista daqueles veículos que têm cofre e as chaves ficam na empresa. O amor dela é assim, mora em outro lugar, bem longe.


A verdade é que o amor de muita gente fica em outros lugares. O amor faz isso de brincadeira. A diferença é que o amor de muita gente gosta de brincar de pega-pega


'tá com você'.


Mas o amor dela era amor de esconde-esconde. A gente não sabe se pela energia baixa, ou pelo acúmulo de vênus nas casas 5,6,7,8.


Antes que vocês achem que ela nega o que não é direito ninguém recusar, eu preciso dizer:


O amor dela se esconde nas linhas das mãos dos outros. Ele faz isso sozinho, por acaso ou sorte, nunca por merecimento ou processo seletivo. É por isso que eu preciso te alertar sobre os filmes românticos, os planos e estratégias de conquista. O amor pode ser conquistado, mas não esse. Esse tipo de amor de esconde-esconde só pode ser mesmo encontrado. Não importa quantos balões você colocar no céu, quantas poesias, o amor dela tá num esconderijo. Tá num esconderijo e é cego. Não é culpa dela, não é fracasso seu. As borboletas do estômago não voam quando a gente quer. O corpo não mente, mas fala um dialeto traiçoeiro.


Quando ela encontra o esconderijo, não consegue esconder as evidências de


'1,2,3 salve o mundo'


as evidências são: tremores, dificuldade na fala, olhar viciado, sorriso bobo. Outras manifestações podem significar um carinho imenso, um amor do tipo amizade. No dialeto do corpo, carinho imenso significa afeto grande. E desse tipo de sentimento ela tem as chaves. Só ganha quem merece. Esse não é o amor de esconde-esconde. Ele não é maior nem menor. O limite é o céu da boca.


Ela vai te mentir que não procura. Ela sabe que procura sem querer e também sabe que a procura é tão eficiente quanto os balões do outro parágrafo.


Por fim, eu digo que quando ela fala que não reconhece o amor em você eu nem posso dizer sinto muito. Ela já encontrou o amor algumas vezes e continua amiga desses esconderijos. Você jamais vai perguntar pra eles, mas se fizesse eu aposto que a resposta seria essa: ela é três mil vezes melhor amiga do que amante.





terça-feira, 3 de maio de 2011

Che malemolência

Não precisa usar os séculos de experiência nos teclados pra me convencer de que esse samba você vai precisar me tocar uma oitava abaixo.
Aqui, na beira do rio, você trata de atrasar o compasso. Eu deixo de lado os contratempos.

Nosotros na cadência. Faz sol em mi, meu dó deu ré, lá si foi.

domingo, 17 de abril de 2011

Eu sou a musa, digo, música

É, meus dedos andam ocos, gente. Enquanto isso, vai rolar empréstimo de olhos de outras pessoas.
Hoje a visão sou eu. Eu pelo olhar do Eduardo Lyvio, que me enxergou com uns olhos tão delicados e ternos quando escreveu essa música pra mim que eu fiquei, assim, comovida.
Tô louca pra conhecer a melodia e cantar do jeito que ele me viu cantando:

Eu vim na primavera
Como uma quimera
Uma esfera reluzente
Que se pôs sob o seu olhar


Eu vim como uma ideia
Pra uma canção
Desnecessária ao seu repente
Que se dispôs ao seu prosar


Eu sou a música
Não uma simples canção
Mas toda a música
Não as notas de um tom
Mas toda a música
Eu sou o seu violão, a sua voz


Eu cheguei aos seus ouvidos
Com os meus gritos sustenidos
Meus bemóis a soluçar


E num pranto descabido
Desafino os meus sentidos
Se for pra lhe ver passar


O meu riso é um improviso
Numa escala de outro tipo
Que eu ainda vou inventar


E assim, sempre imprecisas
Minhas canções, prosas e rimas
Trovões, trovas que vivo a cantar


Meus fás bemóis, mis sustenidos
Os meus sóis, minhas notas sem sentido
Minhas claves, minhas crases


Se eu desafino é pra conquistar
Seus imperfeitos ouvidos

_________________________________________________________________

E se deu vontade de ver o Eduardo Lyvio Dudu com seus próprios olhos é só abrir a janela http://fermataclandestina.blogspot.com/

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Histórias de Além Bacia do Prata II

O Paraíso é uma ducha de água fria no banheiro escuro e sujo da rodoviária de Santa Cruz de la Sierra, água caindo na pele enfim, depois de dois dias de viagem a seco. Paraíso é o destino onde chega o Trem da Morte, como tinha que ser.

E os deuses sabem, amor, o tamanho da euforia de cantarolar We are the Champions enquanto a água gelada escorre e você balança os braços e até dá uma rebolada, sem muita empolgação pra não encostar nas paredes do box.

Sabem do frio na barriga quando chegaram dois guardas e nos pediram os documentos, a prova de que estávamos em terras estrangeiras. Do nosso medinho depois da desistência dos bilhetes de uma companhia e a certeza de que o vendedor nos mataria. Uma escolha que viraria água nos olhos expressivos da Ana mais tarde, quando ela descobrisse que o ar-condicionado do nosso ônibus seria nada mais do que as janelas abertas.

Os deuses sabem do nosso espanto quando o motorista desceu do ônibus e recebeu três chibatadas pra lembrá-lo de que era ridículo continuar o caminho quando a gasolina tinha subido mais de 50% na semana passada. The show mu
st not go on, produção. A vida tinha que parar, pra seguir de novo na estrada certa. E foi por isso que a nosso ônibus parou alguns quilômetros depois, a quinze minutos da entrada de La Paz, que era nosso destino.

Então descemos do ônibus e encontramos a cidade de um jeito um pouco diferente do planejado. Iríamos pegar um táxi, arranjar um hotel e deitar durante três horas pra acostumar o corpo à altitude. Andamos até a entrada da cidade com as mochilas nas costas e uma ponti
nha de receio dos manifestantes que nem ligaram pra nossa presença ali. Éramos seis viajantes empolgados. Éramos vários viajantes de vários ônibus e carros deixados para trás, fomos recebidos por um carro queimado e tropas do exército boliviano que organizavam a entrada na cidade.

E mesmo sem termos vivido alguma coisa de extraordinária sabíamos que uma hora ou outra iríamos usar a poesia pedante do momento e contar que naquele dia encontramos a paz, La Paz, com as nossas próprias pernas- mochila nas costas, casaco no corpo, verão nos bolsos, cidade abaixo e a promessa de que o mundo continuaria grande, mas nós seríamos mais fortes.


Fotos: Gabriel Lourenço

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Histórias de além Bacia do Prata I




Fim da pausa e eu me desacostumei a escrever no blog. Acho que mais afetada. Tão afetada que não quero nem pedir desculpas pela falta de fluência. Ah, quem quiser que conte outra.
E esse título tem dedicatória, é ele próprio uma dedicatória, a dedicatória mais blasé que você já leu talvez. Mas ele bem que merece, o amigo viajante experiente mais desnaturado do mundo.

Acordei em Corumbá naquele dia, de boot no pés e mochila nas costas. E melhor do que acordar em Corumbá, amigo, só se você não dormir.
Nas primeiras três quadras de caminhada embaixo do sol pelando, eu quase entendi porque Corumbá é uma das minhas cidades preferidas nesse mundo (o meu). É que o calor não vem de fora, o sol não passa por cima da pele arrepiando a gente como aqui em Campo Grande. Em Corumbá a gente cozinha por dentro primeiro e foi uma corumbaense que me ensinou: pra ser verdade tem que ser de dentro pra fora.
Também tem o lance do suor em Corumbá não ser aquela coisinha úmida que incomoda: lá a gente não sua fino, exala água salgada de respeito, muito mais densa. Em Corumbá a gente é mar e eu até acho que se um dia sua pressão baixar com o calor, você pode se lamber que passa.
Ainda tem o fato de você poder pegar um ônibus chamado Fronteira em Corumbá. E é claro que se fronteira é o limite entre uma coisa e outra, a gente quer mais é transpor. É claro que se a gente acha que o mundo veio pra gente, a gente quer cada pedacinho dele. E se a gente não tem certeza sobre o que acontece depois ou o que veio antes, a gente só quer aproveitar inteiro antes que acabe o mundo, antes que acabe a gente.
E foi com essa urgência engraçada e santa que pegamos o ônibus Fronteira três vezes naquele dia, entre corridas pelas ladeiras da cidade enquanto tentávamos resolver o problema da falta de uma das carteiras de vacinação (o primeiro e menor problema da nossa grande mini viagem), até finalmente enfrentarmos uma fila enorme para sair do Brasil e em seguida o olhar duro do policial para entrar na Bolívia, depois embarcarmos correndo no trem que iria de Puerto Quijaro a Santa Cruz. O Trem da Morte, onde eu achei mesmo que fosse morrer de tédio quando percebi a velocidade de subida de montanha-russa que a viagem teria e a falta de um baralho ou um livro na minha mochila.
A resposta à falta de ar-condicionado veio de madrugada quando o vento gelado da Bolívia entrou pela janela e eu tive que pegar todos os casacos, um cachecol e um par de luvas que não foram suficientes pra me aquecer.
Quando o sol veio expulsar o frio a gente acordou, comeu barrinhas com cara de mochileiros experientes e eu saquei minha escova de dentes, a garrafa de água mineral e desisti do banheiro sujo. Santa Cruz ia ficando mais perto e o sol mais forte, a estrada era bonita, toda estrada é bonita, a velocidade do trem parece bem maior quando se está entre os vagões e o barulho é uma música contagiante e alta que me fez querer dançar ali mesmo enquanto eu escovava os dentes com a direita e me equilibrava em segunda posição segurando com a esquerda na alça de ferro, a escovação mais radical da minha vida.