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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ilha

É tão bobo quanto bonito, sabe? Algumas pessoas passam pela gente e colocam palavras nos nossos dedos, músicas nas nossas gargantas, dança no nosso corpo, sorriso besta na nossa cara de besta. Não que antes a gente não tivesse poesia escrita nas linhas da mão, música nas cordas bambas, dança latejando e cara de bobo. Tudo isso nasceu com a gente por causa da angulação dos planetas, mas fica quietinho do lado de dentro. E se alguém passa e seu coração acelera, esse aumento da velocidade dos batimentos cardíacos faz sair música onde era silêncio, ponto de exclamação onde era dança, sorriso onde era só cara besta. É cientificamente comprovado. É tão cardíaco quanto um ataque, sabe? Um ataque pro qual não existe defesa.

É bem provável que você nunca sinta isso. Porque você pisa no chão, porque você é maduro, porque você é artista. E eu não sou nenhuma dessas coisas. Mas eu conheço a receita, eu sei das regras da sala de espera. Colocar a cabeça no travesseiro e suspirar se for o único tipo de respiração disponível no momento, mas jamais, jamais fazer o sinal da cruz nem rezar a oração profana do Vinicius de Moraes "Meu Deus, eu quero a mulher que passa (...)"




quinta-feira, 24 de junho de 2010

partida

Eu tava sonolenta no banco de madeira da pequena estação de trem de Toledo. Tinha andado o dia todo pela cidade inteira embaixo de sol, ignorando uma gripe espanhola que me pegou de jeito por lá mas não podia atrapalhar. Eu e meus primos esperávamos o penúltimo trem do dia de Toledo pra Madri. Ainda fazia sol lá fora, aliás naquele lugar de além-mar, o sol se põe lá pelas oito e meia da noite, os dias parecem eternos (aah, el verano!).
Vários turistas já começavam a chegar, nossos companheiros de trem. Ouvimos português no salão perto da gente: cariocas, um casal jovem e o filho de uns 3 anos. Depois de um tempinho mais português, esse mais chiado do que o carioquês: família portuguesa.
Os dois menininhos portugueses, de uns 5 e 8 anos, tinham uma bola e começaram a brincadeira. O brasileiro logo desceu do carrinho e nem tirou a chupeta, não falou nada, o que me fez pensar se o futebol não é mesmo uma língua internacional.
De repente o salão de ornamentos toledanos já tinha virado quadra e todo mundo em volta era torcida. E a mãe portuguesa, com os olhos cheios de carinho, olhou pra brasileira e disse com ar de orgulho:
- A melhor seleção da Europa. Contra a melhor seleção do mundo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

aqui aquém-mar

Acordei ás 7 só pra dar uma força. Solidariedade com Portugal, uma terra que eu não gosto desde sempre, mas que eu gosto desde que vi.
Concentrei todas as minhas forças na torcida, eu sei que estar lá na Europa ás vezes não é mole pra eles, aquele povo que olha inocente e fala chiado merece sorriso de golo.
Comecei deitada no sofá
1, bonito golo!
2 que lindos.
3 socorro.
4 levantei.
5 ai minha barriga, eu tô gritando.
6 no lo creoooo, que liiiindos.
E aí eu já tava mais do que me sentindo culpada, torcendo tão forte sem querer pra uma seleção que nem era a minha. A minha é melhor, a minha é Brasil, Liedson. Mas aí veio o 7 inevitável, que esse ninguém segurava, que 7 é meu número da sorte.
Da sorte no jogo, amor.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

helga huelga

Minha mãe comprou um leite novo na semana passada. Fabricado no Paraguai.
Leche. E cada vez que eu batia o olho no leche a saudade batia em mim, Helga.
Você pediu pra me dar colo, saudades da hija que nunca veio. Eu assustei de felicidade com o tamanho da correspondência. Nem sangue, nem línga, nem pátria. Eu coube na filha, você coube na mãe, mesmo número. let it be
-me cago en la leche, você dizia de hora em hora pra dizer que não ligava. e abria o leque.

Hoje eu acordei e não tinha mais leche. Saudade ainda tinha, Helga Huelga. ainda tem.