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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ilha

É tão bobo quanto bonito, sabe? Algumas pessoas passam pela gente e colocam palavras nos nossos dedos, músicas nas nossas gargantas, dança no nosso corpo, sorriso besta na nossa cara de besta. Não que antes a gente não tivesse poesia escrita nas linhas da mão, música nas cordas bambas, dança latejando e cara de bobo. Tudo isso nasceu com a gente por causa da angulação dos planetas, mas fica quietinho do lado de dentro. E se alguém passa e seu coração acelera, esse aumento da velocidade dos batimentos cardíacos faz sair música onde era silêncio, ponto de exclamação onde era dança, sorriso onde era só cara besta. É cientificamente comprovado. É tão cardíaco quanto um ataque, sabe? Um ataque pro qual não existe defesa.

É bem provável que você nunca sinta isso. Porque você pisa no chão, porque você é maduro, porque você é artista. E eu não sou nenhuma dessas coisas. Mas eu conheço a receita, eu sei das regras da sala de espera. Colocar a cabeça no travesseiro e suspirar se for o único tipo de respiração disponível no momento, mas jamais, jamais fazer o sinal da cruz nem rezar a oração profana do Vinicius de Moraes "Meu Deus, eu quero a mulher que passa (...)"




quinta-feira, 7 de julho de 2011

D 007

No sábado meu corpo quase ficou triste de saudade, mas meus olhos se alegraram bastante. Quem não viu o espetáculo do Estúdio de Dança Beatriz de Almeida, que vista os binóculos que eu trouxe e leia minha descrição.



Um menino sapateou com o sol nos pés. Gente que era pequena, agora é grande e faz até pirueta. Voz rouca, dança com força de jazz. A grande pequena bailarina que eu sempre amei ver em cena. Bailarinas completas, lindas no palco de flor na cabeça, Rosalvas.



Entre tantas coisas lindas, meus olhos gostaram tanto de ver você quando apareceu discretamente no canto do palco.. Enxergamos o suspiro de concentração nos seus olhos antes da música te fazer flutuar. Seus pés riscando o palco, você segurando a música nas mãos, brincando com a gente nos contratempos entre os pas-des-burrés. Você abraçando o mundo com seus braços imensos, que dançar é abraçar o invisível. Você varrendo os males do mundo pra bem longe com seus piqués incansáveis, a quinta fechadinha. Olhando pro alto pra enxergar o balance com esses seus olhos grandes. Você sozinha, mas tão amparada, enchendo o palco inteiro de você mesma. Você enchendo a platéia com a sua graça indizível. Tão leve, tão leve, tão doce de olhar, indelével.



Depois de flor no cabelo como as outras, os pés esticados, saltos precisos. A dona do palco. Girando em diagonal, tão rápido, tão rápido enquanto o maestro invisível sorri pra orquestra e eu também já não posso segurar meu sorriso. Eu e meus olhos satisfeitos, te olhando pela segunda vez com a sensação de que se você dançasse assim mais mil vezes, a gente estaria lá de novo porque, embora o mundo gire tão rápido quanto você marca sua cabeça agora, algumas coisas nunca mudam.




sábado, 7 de agosto de 2010

sem motivos

Seu mal era amar demais uma coisa. Sempre uma coisa só de cada vez, de um amor inteiro indivisível que não se sabe dosar, pende pra um lado, deixa o outro sem.

A primeira poesia que tinha aprendido na escola fora Ou Isto Ou Aquilo, da Cecília Meireles. Ou se calça a luva ou se põe o anel.

Não que não pudesse gostar de várias coisas, afeição tinha de sobra. Assunto principal é que era um de cada vez. Paixão é que era uma de cada vez. Talvez o coração seja mesmo do tamanho de nossas mãos fechadas (e ninguém, nem mesmo a chuva, tinha mãos tão pequenas.)

Pensava que se dois corpos não podem ocupar um só espaço, como poderiam dois espaços ocupar um só corpo?

É por isso que quando dançava tudo sumia, neblina que era a dança dela. Um dia teve que atar os braços e as pernas, pra ver o sol talvez.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

aqueimar

Eu tava no 070 saindo de uma prova cruel, indo pro ensaio. Mas de repente o ônibus mudou de rumo, foi me levando pro lugar mais gelado do mundo. E não era fora da janela, era mesmo dentro dos meus olhos que eu via as grades de ferro, o corredor mal iluminado, as paredes lavadas e cheias de marcas, sujas pra sempre, os olhos no chão, os corações e as saudades mil na parede e na carteira.
Vinha da mochila de um menino de uns 13 anos o meu vale-transporte. Era um celular que tocava rap bem alto. Aquela batida gelada, seca. Se o rap se materializasse eu tenho certeza que viraria aquilo, o lugar de tanto concreto e ferro, de palavras perdidas. Onde não existem nomes, só iniciais.
E inicial é o que mais me desespera, depois da inicial como é que termina, seu moço?
Durou pouco mais de quatro minutos a minha viagem àquela Terra do Nunca ao contrário.
O ponto na frente do Shopping ainda tava ali, o ballet ainda era umas cinco quadras pra cima. Nada é fácil de entender.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

laura

era uma senhora de idade inteira e jogava baralho aos domingos. ela e ela mesma, sempre às sete da manhã, uma missa alternativa. evitava fritura, como tinha que ser. tinha uma hortinha no fundo do quintal, como ela queria que fosse desde o começo da história, que ela regava todas as manhãs com um regador que quase não cabia nas suas mãos pequenas e enrugadas. saía com as amigas nas tardes de sábado para lanches dançantes onde nunca, nunca dançava.
não tinha fotos espalhadas pela casa. a não ser aquela que guardava debaixo do travesseiro e sem a qual não dormia direito, as outras guardava no cofre do escritório.
só assistia a novela das oito às segundas, o capítulo mais morno da semana. morria de medo de enfartar com as fortes emoções dos capítulos dos outros dias.
sempre tinha sido covarde. não subira no pé de caju do sítio onde morava quando menina nenhuma vez, nunca tomava banho de chuva.
regava as rosas e os espinhos três vezes por dia e duas vezes por vez. tinha um radinho de pilhas que ligava e desligava sozinho de surpresa.
tinha 15 borrões de tinta na pele flácida, ex-tatuagens que ela não lembrava bem o que eram. tinha cabelos brancos que lembravam nuvens em dia de sol. tomava uísque de manhã e café à noite porque fazia sentido.
não se sentia à vontade dentro daquele corpo curvado e rígido que diziam que era dela.
tinha um alívio imenso do lado de dentro. tinha uma saudade também. tinha uma agonia ás vezes e nunca se recuperaria do trauma.
culpa toda do narrador insensível que bruscamente fez passar setenta anos em uma página.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

colgate total 12 professional whitening-

Alfredo, esse é meu último suspiro. Ninguém tem culpa, o mundo não para de girar mesmo, é assim. Pára pra gente quando o instante existe, pára ás vezes num abraço com acento porque o amor é agudo e grave.
Mas de repente se gira de novo e você percebe, tem mesmo é que ir junto. Ninguém gosta de ficar pendurado, Alfredo. É claro que nunca tem explicação, que acontece um i thought we were just begining and now you say we're in the past. É claro que esse giro novo me pegou de surpresa.
Mas ninguém tem culpa e não é desculpa, Alfredo, pra gente se odiar agora, pra se irritar, pensar que perdeu tempo, esquecer o quanto foi a coisa mais linda do mundo pra sempre, enquanto durou.
Agora fica uma casquinha, que é perdão, dizem. E a gente perdoa o tempo que errou. Fica pra sempre uma ternura aqui, uma ausência aqui, onde era amor.
Faço questão de ficar com a nossa trilha sonora, pode ficar com os filmes se você quiser. A antologia poética a gente doa pra uma instituição de caridade. Pode ficar com a nossa ex-futura casa na praia, eu quero o iate. Fica com o computador, que eu sei que você usa mais, eu levo o telefone.
Você leva a ternura dos olhares furtivos, leva logo vai. Eu fico com os suspiros mudos, não dá pra não ser.
Das nossas manias eu só quero os jargões de despedida, o chá antes de dormir. O resto a gente joga fora, é, acho que não serve pra ninguém. Eu quero o lago do jardim, pode ficar com a piscina e o tobogã.
O nome da filha a gente divide, a minha pode chamar Ana, a sua Maria, quem sabe até elas fiquem amigas quando crescerem sem imaginar que um dia foram a mesma pessoa nos planos que a gente não pôde escrever direito nas linhas das nossas mãos.
Os males cada um leva os que trouxe, Alfredo, e resolve. Preciso aprender a ser só.