quarta-feira, 17 de março de 2010

delay

O maior aprendizado que existe na vida é o de saber a hora certa de sair de cena. Se a gente fica em mais do que deve paga o preço do desprezo sem querer. Se a gente fica quando não é hora, perde o direito de mobilidade. É difícil saber mas o palco dá sinais. Quem tarda é amordaçado e amarrado com cola invisível, tem os pés colados no chão e fica, durante uma coreografia inteira, banido de dançar, olhando tudo impotente, assustado, vilipendiado, agonizando com a música que vem do palco e só é bonita pra quem canta ou pra quem ouve a pelo menos um metro e meio de distância e nenhum dos dois é o caso.
Bruno sabia de tudo isso e saiu logo, mesmo que no fundo ainda quisesse estar preso por vontade. É verdade que seu par deu a deixa, disse que a próxima música era ímpar, disse: me deixa. E antes de sentir as cócegas das amarras invisíveis, Bruno correu-a cabeça baixa, o mais rápido que pôde, quase suficiente. Não teve tempo de carregar seus olhos, aqueles infelizes grudaram no palco e estão amarrados até o final do espetáculo. E Bruno, cambaleante na coxia, não sabe se segue sem eles ou se espera pra buscá-los.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

espirit de l'escalier

a música ainda tocava lá em cima: mi e lá, mi/la, mila, como se me chamasse por querer. descia as escadas bem devagar, prestando atenção em cada passo pra não cair. o jeans escuro era dobrado na barra, eu puxava o casaco de lã entre os meus dedos, tinha o cabelo comprido solto ondulado nas pontas, a pele bem clara iluminada por um vermelho vivo de vergonha, os olhos pequenos, a boca grande, os dentes de baixo ligeiramente tortos num sorriso tímido, o perfume dourado bem doce, o olhar encabulado e cheio de gracejo ainda assim
- Pai, essa é minha amiga, Camila.
- Que menina bonita!

e tinha razão, eu mesma nunca mais fui tão linda assim como naquele dia.

sábado, 30 de janeiro de 2010

lua alta

Feito sem pressa, enquanto a lua tava alta. 'Esse foi o segredo'- disse.
E talvez tenha sido mesmo a falta de pressa, ou excesso de brilho, só sei que te fizeram bom mesmo. Iluminado de aliviar até o meu escuro do mundo naqueles dias em que a saudade tava mais grave.
Eu nem sei se são minhas lentes de aumento, mas ás vezes eu penso que até o escuro do mundo do mundo você podia iluminar um pouco. É que o mundo tem semeado muito vento por aí e tem colhido tempestade demais. Eu penso que você pode ser uma segunda chance, de plantar brisa e colher chuvisco bom.
Eu penso isso porque eu sou mesmo exagerada. Porque eu sei que o mundo nunca te disse sim, e nem não.. e aí você vai insistindo, sem saber se no final ele te expulsa ou te abraça de vez. Sem saber que Cartola é essa, ou se o mundo é mesmo um moinho. Mas final de príncipe é sempre feliz.

E um dia você me perguntou, sem rodeios, sem-vergonha que é : Will you be there?
E eu vou tá lá, sim, assim : I'll be there for you.

sábado, 9 de janeiro de 2010

no começo é um infinito pra dizer, aquelas coisas não ditas que palpitam, um tanto de barulho por dentro quando passa, um transbordamento. depois a gente vai se acostumando com as palpitações, com o desespero do coração nos reencontros (e nos desencontros, amor). a gente acostuma com o barulho das batidas, como as de uma reforma que demora mais do que o esperado.
a gente se habitua e já nem escreve, nem reclama. como se a própria inspiração pedisse: um minuto de silêncio pelo amor que morreu.

e dependendo do tamanho do amor o minuto pode se arrastar por horas e atropelar dias, noites, verões, uma eternidade.
até que a gente nem sabe se acaba muda.
ou se muda.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

todas as coisas

(é.. o resto a gente pode disfarçar. mas olfato, de fato, é fato.)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

therefore

- Ah eu quero te dizer que o instante de te ver custou tanto penar, não vou me arrepender. só vim te convencer que eu vim pra não morrer de tanto te esperar. eu quero te contar das chuvas que apanhei, das noites que varei no escuro a te buscar, eu quero te mostrar as marcas que ganhei nas lutas contra o rei, nas discussões com Deus.. e agora que cheguei, eu quero a recompensa. eu quero a prenda imensa dos carinhos teus.

ela quis ignorar, mas acabou fazendo sol. não conseguiu esconder no escuro do mundo que sabia muito bem a continuação da música, ela que escutava essa desde pequenininha e afinal também era maria.


( a fala é parte de uma música, claro, do chico. )

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

aqueimar

Eu tava no 070 saindo de uma prova cruel, indo pro ensaio. Mas de repente o ônibus mudou de rumo, foi me levando pro lugar mais gelado do mundo e não era fora da janela, era mesmo dentro dos meus olhos que eu via as grades de ferro, o corredor mal iluminado, as paredes lavadas e cheias de marcas, sujas pra sempre, os olhos no chão, os corações e as saudades mil na parede e na carteira.
Vinha da mochila de um menino de uns 13 anos o meu vale-transporte. Era um celular que tocava rap bem alto, aquela batida gelada, seca. Se o rap se materializasse eu tenho certeza que viraria aquilo, o lugar de tanto concreto e ferro, de palavras perdidas, onde não existem nomes só iniciais.
E inicial é o que mais me desespera, depois da inicial como é que termina, seu moço?
Durou pouco mais de quatro minutos a minha viagem àquela Terra do Nunca ao contrário.
O ponto na frente do Shopping ainda tava ali, o ballet ainda era umas cinco quadras pra cima. Nada é fácil de entender.