sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Era um dia e outro na rua antiga quase invisível. As janelas de verdade já estavam fechadas, o chão de paralelepípedos e a iluminação fraca do poste apertavam a gente. Bonito de dar vontade de se aninhar, você sabe.
E a Lúcia lá, no final da ruela, se despedaçava silenciosamente. A Lúcia escandalosa explodia ao som do vento. azul, dourado, verde, até virar céu.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Uma dose de Leminsk pra arrancar esse blog do limbo. Um dos poemas que eu mais gosto nessa vida.
Tenho mania de ler esse poema com um mas antes, não sei porque. Acontece desde que esbarrei com ele pela primeira vez. E antes de encontrar a versão original na internet ou no livro, distraída, me lembro dele com um mas no começo, como se existisse um prólogo escrito com tinta invisível, subentendido. esse que eu entendo..

(Mas)

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante

Paulo Leminsk

terça-feira, 20 de outubro de 2009

laura

era uma senhora de idade inteira e jogava baralho aos domingos ela e ela mesma, sempre às sete da manhã, uma missa alternativa. evitava fritura, como tinha que ser. tinha uma hortinha no fundo do quintal, como ela queria que fosse desde o começo da história, que ela regava todas as manhãs com um regador que quase não cabia nas suas mãos pequenas e enrugadas. saía com as amigas nas tardes de sábado para lanches dançantes onde nunca, nunca dançava.
não tinha fotos em casa. a não ser aquela que guardava debaixo do travesseiro e sem a qual não dormia direito, as outras guardava no cofre do escritório.
só assistia a novela das oito às segundas, o capítulo mais morno da semana. morria de medo de enfartar com as fortes emoções dos capítulos dos outros dias.
sempre tinha sido covarde. não subira no pé de caju do sítio onde morava quando menina nenhuma vez, nunca tomava banho de chuva.
regava as rosas e os espinhos três vezes por dia e duas vezes por vez. tinha um radinho de pilhas que ligava e desligava sozinho de surpresa.
tinha 15 borrões de tinta na pele flácida, ex-tatuagens que ela não lembrava bem o que eram. tinha cabelos brancos que lembravam nuvens em dia de sol. tomava uísque de manhã e café à noite porque fazia sentido.
não se sentia a vontade dentro daquele corpo curvado e rígido que era seu diziam. tinha um alívio imenso dentro dela. tinha uma saudade. tinha uma agonia ás vezes e nunca se recuperaria do trauma. culpa toda do narrador insensível que bruscamente fez passar setenta anos em uma página.

domingo, 4 de outubro de 2009

ultra

-a maioria das mulheres descobre que tá grávida fazendo um exame de sangue, com você foi diferente. eu já sabia que tava grávida, mas ainda não tinha feito nenhum exame. me candidatei a paciente pra aula de ultrassonografia na faculdade. foi a coisa mais emocionante do mundo o que a gente viu, eu, todos os meus colegas, o professor : você, aquela sementinha pulsando.- disse minha mãe.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

'o tempo perguntou pro tempo quanto tempo o tempo tem.'

sábado, 19 de setembro de 2009

abóbora

Foi quando eu te vi sentada entre as outras, mãos em cima da perna, cachecol branco, brincos e colares combinando, o cabelo preso destacando o pescoço longo. Impressionante o jeito como você tá sempre altiva, se jogada no sofá, se esperando o ônibus no fim da tarde, sua postura tem essa elegância que não descansa.
Foi quando eu te vi sentada entre as outras e eu acho um barato o jeito como você conversa, conta como se conta um conto. Foi quando eu te vi sentada entre as outras e você não se camufla, você e outras quinze, vinte. você puxa meus olhos sem querer, com mais força que as vinte, trinta, e eu fico assim pendendo pro lado esquerdo.
Foi quando eu te vi entre as outras que eu não via. Foi que meus olhos se estrelaram que nem em desenho animado pela 736746123 vez desde que eu te conheci. Foi aí que eu entendi que nunca ia me acostumar. Que toda vez que eu te visse ia sorrir sorriso de setenta borboletas voando dentro do meu estômago.

É então que vem a sala de espera. E eu sei das regras da sala de espera.
É que a gente precisa ter o cuidado de atravessar a história pela margem, se pular de um parágrafo pro outro periga cair e eu cavaleiro sem armadura e você, como é que faz?
É que a gente precisa parar antes do abraço, recolher as folhas. Pra não abraçar feito espantalho que abre os braços só pra espantar os pássaros, como a Rita disse.

É que vem a madrugada e eu cinderelo, viro a abóbora. Mas eu precisava era aprender o silêncio, ser flor.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

curto circuito

Chuvisco arrumou sua trouxa e partiu de madrugada. Pegou carona com uma comitiva de cantores. Enfrentou os raios e relâmpagos de uma tempestade que se formou na estrada. Chegou. Tomou um copo de café na padaria da cidade. Pediu autógrafo de árvore famosa. Rodou pela cidade em busca dos artistas que dançavam na ponta dos pés. Encontrou pouso. Fez repouso.Andou nas margens do Taquari. Ajudou nos preparativos da festa. Riu um pouco dos exageros no palco. Virou do avesso com a beleza das danças que viu, com a beleza da espera de uma das bailarinas na beira da coxia inventada, com a beleza do ritmo que os pares de tênis levaram pro show. Tomou bebida viva e borbulhante, daquelas que se fazem de formiga dentro da boca. Assistiu à prova de montaria, oito segundos num colchão na vertical. Lutou contra baratas. Matou pernilongos. Se afogou no Taquari. Riu da vida. Tirou retrato.
E quando dormiu sonhou com os olhos da amada. Aqueles olhos castanhos de amêndoa da amada. Tão distantes, tão distantes, tão distantes. A meio metro dos seus.