sábado, 11 de abril de 2009

gol

Eu tava descendo a Furnas no meu carro acidentalmente estilizado, veio a luz vermelha e pediu pra esperar, era a deixa. Break.
Começou a dançar o menino. dança de rua ao som de vrums, pés descalços contemporâneos no asfalto quente, o eixo no chão. Eu nem sei se ele sofre com a textura do palco, se já cansou da iluminação vermelha, mas aquela coreografia de imprevisto me deu sorrisos.
E eu fui embora montada no meu fox de zebrinha meio sem querer, pensando em tirar o menino pra dançar Contrastes, esse clássico de Brasilidade.
A gente girava no chão e depois na ponta, e depois no chão e depois parava. E compartilhava as bolhas do pé e os roxos do joelho. Eu não discutia sobre a dança, nem sobre os rumos, não contava até oito, nem perguntava nome. A gente ia aprender a escutar o silêncio, fazer de dia a Noite dos mascarados, fingir que era carnaval.
A gente parava a cidade um pouquinho, porque a luz tava vermelha, pra aproveitar a iluminação. Por alguns compassos.

domingo, 29 de março de 2009

pausa pra um beijo

Segura o tempo aí um pouquinho, que eu preciso dar um recado.
Eu não sei se você anda ouvindo por aí, Alfredo, que eu te amo, Alfredo. Eu não sei se você tem falado com as nuvens ultimamente, nem sei se você tem lido o chão do seu quarto onde um dia eu esparramei tanto amor que deve ter ficado tatuado pra te lembrar.
Eu só sei que esse meu amor que se faz de mudo e nem é, e nem muda, eu só sei que ele hoje acordou transbordando todos os dias. E que eu vim te beijar com palavras, Alfredo, que entre os mil tipos de beijos possíveis a gente precisa escolher o beijo nosso de cada dia e hoje é domingo dia santo. Eu vim te beijar com palavras porque eu te quero bem e fico tão feliz quando você vem brincar de caber na minha vida. É que aqui é meu mundo, tem minha mãe, tem meu pai, meus irmãos, tem o sofá grande, minhas calças estranhas e eu fico boba de ver quando você se integra, como você é tão lindo aí fora no mundo e traz toda essa lindeza pra cá. Que o Tom cantou ah se ela soubesse que quando ela passa o mundo inteirinho se enche de graça e eu gostei dessa desde pequeninho
mas quando você fica, Alfredo, aí a graça é mais que graça. Meu mundo fica muito mais lindo, até minhas calças gostam de você aqui, sabe?

Eu te amo, Alfredo.

quinta-feira, 19 de março de 2009

assimétricos

Ele deitava agora, pra não dormir, duas horas e meia de insônia, duas horas e meia de procura-se uma posição, duas horas e meia de 'esse quarto ficou grande demais..'.

Ele outro sonhava agora, do outro lado de um país que não existe. e se mexia em sono agitado em sincronia com o primeiro, sem saber.

Ele um tinha sede, mas uma preguiça insuperável de se levantar do sofá.

Ele outro pegava água num surto automático e esquecia na mesa de centro, coisas daquelas que a gente faz sem querer. é que a sede não era dele, morava tão longe dali e ele nem sabia.

Ele outro descansava as mãos apoiadas nas pernas, sempre a palma virada pra cima. Ele um se punha sempre de palma pra baixo sem saber o que procurava. Era de dar quase dó quando ficava evidente que até os dedos deles se encaixavam perfeitamente no desenho das sombras quando a noite era escura demais. Deles que eram paralelos, que nem se dessem um nó no vento e soprassem com força se encontravam. Deles que o encaixe era só deles e outro não existia, deles que iam pra sempre andar meio tortos, sempre torcer um pouquinho pra caber onde não é lugar, -mas se o lugar não vem o que se há de fazer?
E era de quase dar orgulho essa melancolia, de quando a noite gritava -Alfredo! e esse sussurro pro Ricardo é que nunca chegava.
Deles sempre meio cheios de estarem sempre meio vazios, dessa elegância deles que 'um homem com uma dor é sempre mais elegante, caminha assim de lado..'

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

out!

Era uma vez, mentira. Era duas vez, três vez talvez, é.
Era tal vez ela que passava, uma daquelas mulheres que a gente jura que não ama porque a saia é pequena demais e se a gente precisa de uma saia pra se esconder debaixo quando o medo tiver gigante demais, o que é que a gente faz com essa saia de um palmo?
Era a tal vez e a mulher que passa, aquela, resolveu ficar.

Era talvez a primeira vez que ele via tão de perto uma daquelas. aparição de carne e osso. É claro que os olhos brilharam e que toda a breguice do mundo vinha agora pousar no ombro dele, fazendo carinho, falando de amor. E onde chovia antes ia fazer sol agora, e onde sofria antes ia agora fazer sentido.

Trocaram, durante três minutos e quarenta e dois segundos, tempo da música deles que não tocou e nem precisava, olhares de ternura, carícias telepáticas, juras mudas de arrepio e amor eterno.
A levitação se desfez logo no primeiro toque. Alguma coisa nela ardia demais.

Ia ser sempre lindo e mesmo quando a Amy cantasse I died a hundred times, you go back to her and I go back to blak, ia ter uma Elis pra retrucar Black is beautiful.
Mas só quando o tempo fosse bonzinho e ele deixasse de se sentir queimar sempre que encostasse nas marcas, ainda quentes, de outros braços no corpo dela, como se fossem tatuagens de abraços de ferro em boi. Quando o tempo de casulo passasse e ele aprendesse a voar, quando largasse de ser vaca, o babaca.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

quer dançar sem migo?

é que aquilo vinha dando tontura de novo e demais, tortura de novo de mais, não.
é que dói de não caber nessa quadrilha, alargador se eu não uso, Carlos maldito!
e a gente aqui de novo, no caracol. se eu te puxasse pela mão, pra redemoinhar, primeira da fila, assim ímpar, meio sem par, você ficava aí, as duas mãos ocupadas, e eu meio sem rumo, meio pela metade.
Não, Pablo, eu não sei dançar essa quadrilha. pequena demais pra um pas-des-quantoscouber.