sábado, 7 de agosto de 2010

sem motivos

Seu mal era amar demais uma coisa. Sempre uma coisa só de cada vez, de um amor inteiro indivisível que não se sabe dosar, pende pra um lado, deixa o outro sem.

A primeira poesia que tinha aprendido na escola fora Ou Isto Ou Aquilo, da Cecília Meireles. Ou se calça a luva ou se põe o anel.

Não que não pudesse gostar de várias coisas, afeição tinha de sobra. Assunto principal é que era um de cada vez. Paixão é que era uma de cada vez. Talvez o coração seja mesmo do tamanho de nossas mãos fechadas (e ninguém, nem mesmo a chuva, tinha mãos tão pequenas.)

Pensava que se dois corpos não podem ocupar um só espaço, como poderiam dois espaços ocupar um só corpo?

É por isso que quando dançava tudo sumia, neblina que era a dança dela. Um dia teve que atar os braços e as pernas, pra ver o sol talvez.

domingo, 1 de agosto de 2010

por enquanto

estamos indo de volta pra casa.

não era assim?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

sudoeste

Mas essa chuva de 'até que enfim' é nada menos que o choro de inveja das sereias.
Imagine que disparate você, com esse par de pernas de mais de um metro, mergulhando no rio delas.

sábado, 3 de julho de 2010

janela

Sentimento de janela é aquilo que dá quando a gente sente uma melancolia tão grande que o único jeito seria sentar na janela com um violão e tocar as músicas certas trezentas mil quatrocentas e sete vezes, até entender o silêncio.
Janela porque era praquela que me dava vontade de ir. A janela do quartão. 'Janela de verdade', maior que minhas pernas, de madeira, com fechadura e quatro folhas.
Quando eu era pequena a tevê de casa ficava no quartão. Meu pai e o violão dele também. Pra cantar minhas músicas era só me sentar no sofá, esperar o aquecimento, quase sempre 'Minueto de Bach', e usufruir do karaoke gratuito. Não se dizia muita coisa, até porque nenhum dos dois, nem eu nem meu pai, somos de falar assim de graça. Ele dizia 'vai filha' e balançava a cabeça, eu sempre enrolava uns compassos e aí caía na bossa nova. Assim tudo ficava mais simples. No final do dia, no fim das contas o mundo, a vida, a gente, os nós eram só isso: voz e violão.




São sombras cantando, sombras sem cabeça, mas tá valendo. O quase -video foi feito em Dourados, na casa do meu pai e da Rozanna, no comecinho de 2009.

Mas quando ela pegar suas mãos e não me encontrar por ali, quando não disser de mim no seu passado presente, futuro. Não me ler em nenhuma das linhas: a do amor, da vida, da saudade.. não se espante. Não se engane.
Ela não perdeu a clarividência, nem eu fui um devaneio.
É que eu sou uma entrelinha. Uma entrelinha invisível, escrita em braile na palma das suas mãos.