Eu tava no 070 saindo de uma prova cruel, indo pro ensaio. Mas de repente o ônibus mudou de rumo, foi me levando pro lugar mais gelado do mundo. E não era fora da janela, era mesmo dentro dos meus olhos que eu via as grades de ferro, o corredor mal iluminado, as paredes lavadas e cheias de marcas, sujas pra sempre, os olhos no chão, os corações e as saudades mil na parede e na carteira.
Vinha da mochila de um menino de uns 13 anos o meu vale-transporte. Era um celular que tocava rap bem alto. Aquela batida gelada, seca. Se o rap se materializasse eu tenho certeza que viraria aquilo, o lugar de tanto concreto e ferro, de palavras perdidas. Onde não existem nomes, só iniciais.
E inicial é o que mais me desespera, depois da inicial como é que termina, seu moço?
Durou pouco mais de quatro minutos a minha viagem àquela Terra do Nunca ao contrário.
O ponto na frente do Shopping ainda tava ali, o ballet ainda era umas cinco quadras pra cima. Nada é fácil de entender.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Era um dia e outro na rua antiga quase invisível. As janelas de verdade já estavam fechadas, o chão de paralelepípedos e a iluminação fraca do poste apertavam a gente. Bonito de dar vontade de se aninhar, você sabe.
E a Lúcia, lá no final da ruela, se despedaçava silenciosamente. A Lúcia escandalosa explodia ao som do vento. azul, dourado, verde, até virar céu.
E a Lúcia, lá no final da ruela, se despedaçava silenciosamente. A Lúcia escandalosa explodia ao som do vento. azul, dourado, verde, até virar céu.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Uma dose de Leminsk pra arrancar esse blog do limbo. Um dos poemas que eu mais gosto nessa vida.
Tenho mania de ler esse poema com um mas antes, não sei porque. Acontece desde que esbarrei com ele pela primeira vez. E antes de encontrar a versão original na internet ou no livro, distraída, me lembro dele com um mas no começo, como se existisse um prólogo escrito com tinta invisível, subentendido. esse que eu entendo..
(Mas)
um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante
Paulo Leminsk
Tenho mania de ler esse poema com um mas antes, não sei porque. Acontece desde que esbarrei com ele pela primeira vez. E antes de encontrar a versão original na internet ou no livro, distraída, me lembro dele com um mas no começo, como se existisse um prólogo escrito com tinta invisível, subentendido. esse que eu entendo..
(Mas)
um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante
Paulo Leminsk
terça-feira, 20 de outubro de 2009
laura
era uma senhora de idade inteira e jogava baralho aos domingos. ela e ela mesma, sempre às sete da manhã, uma missa alternativa. evitava fritura, como tinha que ser. tinha uma hortinha no fundo do quintal, como ela queria que fosse desde o começo da história, que ela regava todas as manhãs com um regador que quase não cabia nas suas mãos pequenas e enrugadas. saía com as amigas nas tardes de sábado para lanches dançantes onde nunca, nunca dançava.
não tinha fotos espalhadas pela casa. a não ser aquela que guardava debaixo do travesseiro e sem a qual não dormia direito, as outras guardava no cofre do escritório.
só assistia a novela das oito às segundas, o capítulo mais morno da semana. morria de medo de enfartar com as fortes emoções dos capítulos dos outros dias.
sempre tinha sido covarde. não subira no pé de caju do sítio onde morava quando menina nenhuma vez, nunca tomava banho de chuva.
regava as rosas e os espinhos três vezes por dia e duas vezes por vez. tinha um radinho de pilhas que ligava e desligava sozinho de surpresa.
tinha 15 borrões de tinta na pele flácida, ex-tatuagens que ela não lembrava bem o que eram. tinha cabelos brancos que lembravam nuvens em dia de sol. tomava uísque de manhã e café à noite porque fazia sentido.
não se sentia à vontade dentro daquele corpo curvado e rígido que diziam que era dela.
não tinha fotos espalhadas pela casa. a não ser aquela que guardava debaixo do travesseiro e sem a qual não dormia direito, as outras guardava no cofre do escritório.
só assistia a novela das oito às segundas, o capítulo mais morno da semana. morria de medo de enfartar com as fortes emoções dos capítulos dos outros dias.
sempre tinha sido covarde. não subira no pé de caju do sítio onde morava quando menina nenhuma vez, nunca tomava banho de chuva.
regava as rosas e os espinhos três vezes por dia e duas vezes por vez. tinha um radinho de pilhas que ligava e desligava sozinho de surpresa.
tinha 15 borrões de tinta na pele flácida, ex-tatuagens que ela não lembrava bem o que eram. tinha cabelos brancos que lembravam nuvens em dia de sol. tomava uísque de manhã e café à noite porque fazia sentido.
não se sentia à vontade dentro daquele corpo curvado e rígido que diziam que era dela.
tinha um alívio imenso do lado de dentro. tinha uma saudade também. tinha uma agonia ás vezes e nunca se recuperaria do trauma.
culpa toda do narrador insensível que bruscamente fez passar setenta anos em uma página.
domingo, 4 de outubro de 2009
ultra
-a maioria das mulheres descobre que tá grávida fazendo um exame de sangue, com você foi diferente. eu já sabia que tava grávida, mas ainda não tinha feito nenhum exame. me candidatei a paciente pra aula de ultrassonografia na faculdade. foi a coisa mais emocionante do mundo o que a gente viu, eu, todos os meus colegas, o professor : você, aquela sementinha pulsando.- disse minha mãe.
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