domingo, 10 de março de 2013

Sofia

Sofia era mais inteligente do que todos os outros. Emocionalmente, digo. Demorou muito para aprender que existe um limite de vezes que deve-se chamar alguém pra sair e que correr atrás das pessoas é vergonhoso (tanto quanto esperar abertamente que o outro corresponda). Por pessoas não deve-se esperar, insistir ou correr atrás. Uma lição que ela demorou muito para aprender e pouco para desaprender.

Sofia era mais inteligente do que os outros. Descobriu logo que o empreendimento de fingir desinteresse e ignorar paixonites não combinava com ela. Três quartos das pessoas do mundo atual são empreendedoras ou acham que poderiam ser. Sofia, porém, não era dada a esse tipo de modismo. Era empregada por natureza, apenas obedecia ordens. E sabia que quando o patrão é o desejo, amigo, a única alternativa possível é obedecer. Se ela te ligou trinta vezes não foi por incoveniência ou insistência dela. São características do chefe. 

Sofia não precisava de limites ou cuidados, nunca sofrera por amor. Você já percebeu que as regras de conduta do flerte são pautadas por decepções amorosas de outros? Sofia percebeu. Era inteligente. Não gostava de desperdício, então resolveu mergulhar. Na noite da virada do ano pediu paixão. Inteligente e supersticiosa, vestiu vermelho. Um vestido tomara-que-caia e justo, pra não sobrar dúvida. 'Tomara que eu caia numa paixão vermelha e justa'.

Sofia era inteligente, mas arrogante demais. O salto era alto e o vestido tão curto.

2 comentários:

Gabriela Kina disse...

*.*

demaneiralguma disse...

Tinha esquecido do quão incríveis são os seus textos, Camila. Dá vontade de passar a tarde lendo e relendo :)