segunda-feira, 22 de outubro de 2012

pepperland

Um touro, quando entra na arena, sabe que vai morrer. Pode ser que o toureiro saia machucado, que acerte a aorta ou não, que leve as duas orelhas ou não, que receba ajuda ou não. Pode ser que nem mesmo as arquibancadas sejam poupadas, que alguns espectadores saiam feridos, nunca se sabe. Dentro da arena, a única certeza é a morte do touro e touro gosta é de certeza. Não é comodismo, não é preguiça de mudar o destino. Existe uma arena, existe um pano vermelho conduzido por alguém que dança um balé mais envolvente que esquisito e é só quando um touro entra na arena, ou melhor, quando ele fica na arena, que  percebe que realmente nessa vida ele é o touro. Porque se existe uma arena, se existe um pano vermelho e um toureiro ele só pode ser o touro. E se ele é o touro, ele só pode perseguir o pano vermelho que balança. Atrás dele a vida selvagem, livre e inteira, à sua frente o destino vermelho.

Se o boi nasce pra morrer e o touro pra reproduzir, o touro bravo existe pra ouvir a música e sangrar. Não é que ele não vá lutar pra afundar toda a existência dele na carne do toureiro. Mas sem querer ele entrega o pescoço logo no primeiro round. Uma tourada poderia durar pra sempre se o touro quisesse, que touro nenhum tem pressa de nada. Mas nem o toureiro e nem o touro escolhem o tempo que dura uma tourada. A banda toca um certo tipo de música triste quando é a hora do golpe final. E o touro é daltônico, mas não é surdo. O touro ouve a música e sabe que acabou ali, que o resto é destino e não depende mais dele, já foi. Como eu soube que era touro quando ouvi a balada triste e pensei em você sem querer.

Um touro quando entra na arena sabe que vai morrer. É por isso que eu te entrego minhas mãos abertas de linhas tortas e é por isso que com você meu pescoço muda de função - se longe de você serve pra segurar minha cabeça, só me faz perder a cabeça quando você tá perto, só me fragiliza. E tanto faz se eu estou livre e selvagem ou presa em um calabouço. Quando eu te vejo na arena com seu pano vermelho, não existe saída e nem entrelinha, eu não sei fazer nada a não ser seguir seus movimentos. Tomara que você leve minhas duas orelhas na saída, eu penso. Enquanto a minha vida escorre e eu te enxergo. Eu, de joelhos, por você.

5 comentários:

Gabriela Kina disse...

Abri aqui, comecei a ler e tocou Vermelho, da Vanessa da Mata. Claro, isso deve significar algo para quem gosta de coincidências! =)

É tão bom ler. Parar na metade nem passa pela cabeça. E olha, Quintana sabe das coisas. ;*

Camila disse...

uáaaaau, que coincidência! ouvi aqui e achei fofa :)
mas acabei mudando o final do texto pq pensei comigo que o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas e se a trama toda é vermelha faltava só o blues pra ser bom morrer de amor. ás vezes o que cabe mesmo é só ficar assim 'de joelhos por você. Clica nele que vale a pena ;) beijo!

Gabriela Kina disse...

Hahahaha Eu vi! Mudou o título também, oras? Mas ok. Clicarei ;)

Tiago Dias disse...

Falando sério, arrume um empresário. Você está na última ilha de liberdade profissional. Literatura.

Thaysa Freitas disse...

camila você acaba com o meu coração!